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11/03/2010

Cadeia do Alumínio: Sonhos e Realidade

                                  José Cursino Raposo Moreira*

              A industrialização sempre foi entendida entre os planejadores e gestores públicos como uma das mais eficazes estratégias para promover o desenvolvimento econômico dos lugares, tendo em vista os efeitos dela decorrentes em termos de criação de empregos, indução ao surgimento de novas atividades, elevação de geração de receitas tributárias e de desenvolvimento tecnológico que proporciona. É verdade que o caso do Nordeste brasileiro, sob o patrocínio da SUDENE, terminou por gerar muitas frustrações quanto a estas expectativas, mas a região certamente estaria em piores condições relativas não tivessem surgido nela as fábricas apoiadas pela autarquia criada por Celso Furtado.       

No Maranhão, o desaparecimento da indústria têxtil, que alavancou a nossa economia na primeira metade do século XX, deixou uma espécie de nostalgia fabril, que viu no surgimento do projeto de produção de alumina e alumínio do consórcio ALUMAR, iniciativa liderada pela ALCOA em sociedade com outras empresas do ramo, uma nova oportunidade, desta vez atuando em um setor que não tinha raízes na formação econômica local e que se vinculava a uma indústria de caráter oligopolista e com foco eminentemente exportador.      

O processo de implantação desse projeto, cuja unidade fabril se localizaria no nascente Distrito Industrial de São Luís, ocorreu, contudo sob forte movimento contestatório de grupos ecologistas que viam na sua operação ameaças ao meio ambiente local, tendo em vista os resíduos gerados no seu processo produtivo. Essa reação foi de tal força e importância que, segundo estudos acadêmicos realizados sobre o projeto, teriam levado os investidores a aumentarem em US$ 100milhões os recursos originalmente destinados à proteção ambiental.

Contudo, prevaleceu o entendimento que a economia maranhense teria com tal projeto, contemporâneo do Projeto Ferro Carajás, este de responsabilidade da então estatal Vale do Rio Doce, voltado para a extração e exportação de minério e ferro, vantagens decorrentes da implantação no estado de um setor de beneficiamento do alumínio primário, tornando especialmente a cidade de São Luís um pólo produtor de uma série de produtos que têm este metal como matéria prima.   

Decorridos já quase trinta anos da implantação do Consórcio Alumar no Maranhão nada deste cenário se concretizou e é freqüente a cobrança dirigida à empresa, à iniciativa privada e ao próprio setor público para que expliquem as causas desta situação e a alterem. Por isso é extremamente oportuna a recente publicação da “Análise das Possibilidades de Adensamento da Cadeia Produtiva do Alumínio no Estado do Maranhão”, sob a coordenação da Federação das Indústrias do Maranhão-FIEMA, e realização e participação de vários parceiros.       .

De forma objetiva e bastante didática o estudo aponta conclusões que certamente não são as mais animadoras para os sonhos que os maranhenses já alimentaram em relação a este projeto por mais de um quarto de século. Entretanto, possui o grande mérito de demonstrar as razões técnicas e econômicas que explicam porque a curto prazo não há hipóteses de oportunidades  viáveis de investimento na cadeia e porque , no médio e longo prazo, estas hipóteses são conservadoras, ou seja, com baixa probabilidade de acontecerem.      .  

No que diz respeito ao curto prazo, a crise mundial de 2008 afetou mais fortemente a indústria do alumínio que a de outros metais, mas principalmente é a estratégia corporativa dos acionistas do Consórcio que a explica, na medida em que a Alcoa e a Alcan estão desverticalizando a produção em várias pastes do mundo e a BHP Billiton só atua até a produção de alumínio primário.  Isto significa, então, que, a depender dos próprios integrantes da planta que atua no Maranhão, não haverá alteração na situação atual. Todavia deve-se entender que esta é uma circunstância que decorre das características próprias deste tipo de indústria, cujo planejamento é de âmbito mundial, compatibilizando sua atuação nos diversos lugares onde atua com essa visão global. Caso isso não seja de interesse de algum ponto espacial em particular, nada poderá ser mudado.   

No horizonte de médio e longo prazo, o estudo aponta que a verticalização da cadeia produtiva do alumínio no Maranhão tenderia a atender prioritariamente o mercado atual e potencial do Norte e Nordeste brasileiros em decorrência da forma de organização espacial predominante da indústria. A hipótese de se voltar para o mercado nacional esbarra na concorrência do pólo do Rio de Janeiro, liderado pela Valesul. 

Assumindo, portanto, como mercado os das regiões acima citadas, o estudo examinou as possibilidades de verticalização em onze atividades, contemplando etapas que compreendem desde a bauxita, matéria prima para a produção da alumina, esta, por sua vez, matéria prima do alumínio, passando pela manufatura de produtos intermediários ou semiacabados, indo até a fabricação de produtos finais. Nestas, em uma escala que classifica as possibilidades de verticalização em muito baixa, baixa, regular, boa e muito boa, só ocorre uma possibilidade boa, na trefilação, e duas regulares, no tratamento de água e extrusão, enquanto se constatam seis na classificação muito baixa e duas na baixa.    

Vê-se, assim, que este estudo tem o grande mérito de separar de forma científica os sonhos e a realidade ligados ao investimento do Consórcio Alumar. Se, por um lado, foram algo românticos aqueles que se lançaram na luta “Fora Alcoa”, que embalou o movimento de oposição à implantação da multinacional em São Luís, por outro faltou aos mais crédulos de uma “era industrial” a partir dela a análise das características dessa indústria, que tem o mundo todo como espaço de acumulação, submetendo-o à sua lógica e conveniências.  

Isto, contudo, não deve significar abandono dos esforços de melhor aproveitamento desta planta na economia maranhense, sobretudo nas medidas de políticas públicas, mas que não se deve depositar a expectativa de industrialização maranhense apenas em projetos desta natureza, desprezando-se as alternativas dos negócios baseados nos arranjos produtivos locais, tão bem distribuídos pelo território estadual. E recorde-se que hoje uma das grandes necessidades do planejamento estadual consiste em estimular um processo de descentralização do desenvolvimento maranhense. 

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* Professor Aposentado do Departamento de Economia da UFMA e Vice Presidente do Conselho Regional de Economia do Maranhão. cursinomoreira@elo.com.br

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